terça-feira, 4 de março de 2014

CAPÍTULO 13



Carla chegou em casa com uma sensação inexorável. Caminhou pela escuridão sem esbarrar em nada, conhecia cada objeto, cada móvel... Cada ângulo, quina, detalhe e vazio... Ela mesma os tinha sistematicamente organizado...

Livrou-se da bolsa sem querer saber onde... Apenas a largou... Em qualquer lugar.

Foi direto para o próprio quarto - pela primeira vez sem se preocupar com como e se os filhos estavam - onde, deitado na cama assistindo TV, estava Tiago:

- Você demorou... Eu já estava preocupado.

Não precisou dizer nada. Ele percebeu que havia algo errado, bastou olhar para ela. Perguntou já sentado na cama:

- Que foi, meu bem? Aconteceu alguma coisa?

Ia levantar, mas Carla o impediu:

- Não é nada, querido, pode continuar deitado... É só uma enxaqueca... Já tomei um comprimido, logo passa.

Entrou no banheiro desejando fechar a porta, só que não o fez. Nunca fechava, ele estranharia. Tentou chorar debaixo do chuveiro, mas não foi capaz. Estava... Desértica.

Passou a esponja no corpo numa tentativa inútil de remover, apagar, limpar...  Por mais que esfregasse estava lá... A presença da boca, das mãos, do corpo dela gravada, dolorosamente encravada na pele...

Saiu do banho com um sentimento a consumi-la: o da ausência de saídas...

Tiago já estava deitado, com as luzes e a TV apagada. Falou de debaixo dos lençóis:

- Pode acender, querida.

A resposta de Carla foi quase mecânica:

- Não, não precisa.

Deitou se sentindo péssima por agradecer mentalmente o fato de ele continuar virado para o outro lado, sem encostar nela.

Naquela noite não queria, não suportaria qualquer tipo de contato físico.

Não conseguiu dormir a noite inteira. Rolou de um lado para o outro, atormentada pelo turbilhão de sentimentos, incapaz de analisar, definir, sequer conseguia pensar... De olhos abertos ou fechados, era a imagem de Júlia que via... Que a dominava... Que a perseguia... Quase como antes.

Tinha esquecido...

Na verdade tinha guardado escondido, durante todos aqueles anos... Evitando a tortura que era, o sofrimento que causava recordar...

E agora as lembranças do presente se mesclavam com as do passado, absolutamente inseparáveis...

A respiração dela... O olhar, a voz, a pele, o gosto, o cheiro... A forma de Júlia tocá-la... Como se não houvesse mais nada nem ninguém, como se o universo inteiro se resumisse a tomar e ser tomada...

As coisas ditas, sopradas, sussurradas... Os beijos, as carícias, o movimento do corpo no dela, no mesmo ritmo deliciosamente cadenciado... A maneira de levar Carla a se entregar, de um jeito vergonhosamente fácil...

O crescendo de prazer quase insuportável arrebatando as duas juntas... 

E depois...

Não havia depois.

Não para Carla.

Aquele era... O término, o fim, um ciclo que tinha se fechado... Naquela última e derradeira morte nos braços dela...

O ponto final.

Só que, no meio dos vincos, daquele terreno seco, quebradiço e árido, ainda existia uma pequena centelha de vida, que Carla não queria, não podia, não estava pronta para ter, receber, alimentar...

Algo que, por mais doloroso e difícil que fosse, tinha que tratar como o que realmente era: uma erva daninha, que precisava ser... Arrancada.

Olhou para o lado... Para Tiago, dormindo tranquilo ao lado dela... Seu companheiro durante tantos anos, com quem tinha realizado tanta coisa... Filhos, um escritório de contabilidade, um lar... Planos, objetivos, sonhos, realidades... Uma vida inteira compartilhada... Era com ele que deveria sentir...

O que sentia com Júlia.

Irônica e perversamente, tinham bastado apenas algumas horas com ela, para que toda a estrutura projetada, erguida e mantida durante anos se rachasse... Tornando-se algo que corria o risco de ruir, uma construção... Condenada.

Essa percepção fez o rumo dos sentimentos e pensamentos de Carla mudarem... Do próprio sofrimento, do âmago do inferno interior que vivenciava para a mais profunda e aguda raiva... Quando a confusão se dissipou e para ela ficou claro...

Mais uma vez, Júlia fazia com que toda a solidez de sua vida se transformasse... Em pó e fumaça.



Nua e solitária na escuridão da sala. Despida até mesmo de seus pensamentos, Julia só conseguia sentir...  A impressão de ter Carla gravada na carne, na pele, no coração... Na alma...

Recolheu as roupas e levou-as para o quarto, no andar de baixo.

A tristeza de Carla, o sofrimento, a dor, o desespero, a amargura... Tinham ficado nela como se estivessem dentro e não fora... Fazendo com que o desejo de ir atrás, de abraçá-la, beijá-la... Dizer que estava tudo bem, que estava disposta a tudo, que nunca mais queria deixá-la... Se tornasse uma necessidade.

Mas essa era uma vontade dela, Júlia. Não sabia o que Carla queria, nem se ela queria...

Sexo não significava nada.

Vestiu um robe leve e foi para antecâmara do quarto.

Ela tinha filhos.

Era casada.

Tinha se permitido, se deixado levar... Num momento de fraqueza, de loucura. Assim que terminou se vestiu e saiu, deixando o arrependimento claro:

“- Não me toca.”

De um jeito que Júlia teria acreditado e aceitado.

Não a procuraria mais.

Se...

As palavras de Carla não fossem tão absolutamente contrárias a tudo que ela havia feito e mostrado...

Pegou gelo, colocou no copo... Depois Whisky... O líquido não foi capaz de amortecer nem os sentimentos, nem as lembranças...

Ter Carla novamente nos braços... O jeito dela se entregar... Absolutamente pleno... Continuava o mesmo... Ou talvez... Até mais intenso... Despertando o que Júlia tinha trancado durante tanto tempo... Uma parte que era de Carla e só para ela... Nunca, jamais tinha conseguido ser assim nem sentir isso com mais ninguém...

Óbvio que tinha se questionado e duvidado antes de reencontrá-la, não sabia como seria, podia ser só ilusão, loucura de sua cabeça... Tinham bastado apenas algumas horas com Carla para dissipar qualquer dúvida que ainda pudesse ter.

Procurou o conforto da poltrona onde sempre estudava os textos, ficou ali sentada, a frase dela se repetindo incessantemente em sua cabeça:

“- Uma vez na vida tenha coragem, seja sincera... Comigo, com você...”

Carla tinha razão. Devia isso a ela... Às duas.

Ao invés de fazer o que tinha feito no passado: fugir, fingir, se afundar, se anestesiar... Em trabalho, drogas, bebidas, festas... Outras bocas, corpos, relações sem pessoalidade... Os dias corridos, as noites e madrugadas alucinados... Exaustivos... Física e emocionalmente... O único jeito que encontrou para conseguir abortar, arrancar o melhor pedaço de si mesma... E ser capaz de não atendê-la, não procurá-la, nunca mais vê-la...

Precisava ter Carla de volta, não importando o que custasse, faria o que fosse preciso... Sem pudores, nem temores... Mesmo sem ter segurança nem certeza alguma... Assumir o risco.

A decisão teve um efeito imediato... De leveza e alívio... Que a fez deixar escapar um suspiro... E sorrir...

Aproximou o braço direito do nariz... Afastou o robe... Cheirou a própria pele... Procurando e encontrando... O perfume dela... E outros resquícios... Marcas de dedos e mordidas que ficariam roxas... Sem conseguir conter o riso, imaginou que o pescoço deveria estar igual... Riu mais ainda... Ao lembrar que tinha gravação no dia seguinte...



Carla estava almoçando com Tiago num restaurante perto do escritório, como fazia sempre. A grande diferença era o celular... Mantido no silencioso... Há três longos dias.

Tinha acabado de pousar os talheres no prato quando, mais uma vez, sentiu a bolsa vibrar. Não se deu ao trabalho de verificar. Sabia perfeitamente quem era. Júlia continuava ligado incessantemente, apesar de Carla nunca ter retornado nem atendido.

Tiago foi visitar um cliente e ela voltou ao escritório. Estava em sua sala, ocupada com uma declaração de imposto de renda, quando a secretária ligou:

- Carla... Minha nossa senhora! A Júlia Prantine está na linha um, e adivinha? Quer falar com você!

O primeiro impulso foi dizer:

- Diz que eu não estou, Rita.

No entanto, tinha dois motivos absolutamente relevantes para não fazer isso. Em primeiro lugar, se recusava a repetir o que Júlia tinha feito com ela. Em segundo, precisava cortar aquilo em definitivo:

- Pode passar a ligação.

Não foi nem um pouco receptiva:

- O que você quer? Você disse... Não... Você prometeu... Que seria só uma conversa e depois não me procuraria mais.

Carinhosa, doce, suave... A voz de Júlia teve um tom inversamente contrário:

- Sim, eu sei. Só que... Não foi só uma conversa...

Carla se calou. Não tinha resposta.

Júlia aproveitou para pedir:

- Carla, por favor... Eu preciso muito falar com você.

Fazendo com que Carla voltasse a explodir:

- Pelo amor de deus, Júlia... Se você quer falar, procure um psicólogo, ou então um padre... Alguém que esteja disposto ou que você pague pra te ouvir.

O tom de Júlia não mudou:

- O que eu tenho pra dizer, é só pra você.

Carla respirou... Acalmou-se... E foi quase doce:

- Pode ficar sossegada. Você não precisa explicar nem se justificar, eu compreendo o que você fez, porque você fez. O que eu não entendo é o que você está fazendo agor...

Não conseguiu completar, foi bruscamente interrompida:

- Você entende. Só não acredita... Ainda. Mas tudo bem, eu posso repetir, quantas vezes for preciso...

Houve uma breve pausa antes de Júlia soprar, com uma suavidade sedutora e rouca:

- Eu quero que você volte a ser minha.

Carla não conseguiu conter o arrepio que lhe subiu pela espinha, foi... Impossível.

- Você enlouqueceu?

A forma que o protesto soou... Disse mais que mil palavras, deixou claro, quase como se assumisse...

Na verdade, só serviu de incentivo:

- Enlouqueci sim, mas não sozinha... Você também enlouqueceu... Junto comigo...

Um estremecimento, quase uma descarga elétrica, fez Carla prender a respiração e se encostar na cadeira...

Júlia prosseguiu:

- Não foi só sexo... Nós duas sabemos disso...

O que moveu Carla foi o instinto... Defesa, preservação, sobrevivência... De uma maneira quase primitiva:

- Só porque você não tem ninguém, está sozinha... O que, aliás, só mostra o quanto você continua sendo a mesma filha da puta egocêntrica, calculista e fria... Acha que tem o direito de estragar a minha vida? Quer acabar com o meu casamento? É isso? Pra você não significa nada, não tem importância nenhuma, mas é a minha família.

Claro que conseguiu atingir Júlia. Ela parou e respirou, se recuperando, por um breve segundo. Para Carla imperceptível.

Naquele instante de silêncio intuiu... Sentiu... O que realmente havia por trás da resistência dela... Quase sorriu... Quando voltou a se sentir segura. Mas não se tratava de poder. Não desejava vencê-la, muito menos dominá-la, de forma alguma. Apenas... Encontrar um espaço onde ambas pudessem ser felizes... Juntas.

Declarou de forma firme e verdadeira sem, no entanto, perder a doçura:

- Carla... Você e tudo que te envolve significa muito pra mim... Sei que você não acredita nisso... Ainda. Mas vou fazer com que você perceba, que tenha certeza que...

Naquele momento, Carla compreendeu... Que todas as suas verdades eram perecíveis... Bastava um sopro de Júlia... Para que se desconstruíssem...

Aquilo causou uma irritação profunda, que beirava a ira... Perdeu o controle do tom, do volume, até mesmo do que dizia:

- Perceber? Perceber o quê? Ter certeza de quê, Júlia? Você... Você... Você não passa de uma grandessíssima filha da...

Júlia a interrompeu, com uma serenidade absoluta:

- Você é a mulher da minha vida.


CONTINUA NA PRÓXIMA 2a FEIRA...  


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Músicas que inspiraram  o capítulo:
https://www.youtube.com/watch?v=AIBv2GEnXlc 
http://www.youtube.com/watch?v=Y18DmVZEj84






postado originalmente em 24 de Abril de 2014 às 18:00. 

12 comentários:

  1. Cada vez mais interessante rs. Bem no fundo "Karla" está amando essa inssistencia da "Julia". Espero que fiquem juntas :-)

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    1. Beth,
      E quem não amaria, né?
      Obrigada, linda!
      bjo ultra mega super hiper imensamente giga!

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  2. Uau q duelo, duas mulheres maravilhosas tentando imprimir suas 'vontades'... Carla e Júlia estão soberbas...
    Parabéns mais uma x Di...

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    1. Acho que no fundo a vontade das duas é a mesma, né?
      kkk
      bjo super ultra mega hiper imensamente giga!

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  3. Agora o que a carla vai fazer da vida??como ela vai largar tudo?? to com dó dela tadinha.... mas estou amando o conto,bjão enorme!!! ass aninha arwen

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    1. Ah, pois é, Aninha...
      E agora???
      Não precisa ter dó pq ela bem que tá gostando, né? kkk
      bjo hiper mega super ultra imensamente giga!

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  4. Muito bom e interessante, e dá um pouco de raiva da Júlia por querer, agora depois de tanto tempo, voltar e simplesmente querer que tudo seja como era... Mas pelo menos ela finalmente está se permitindo começar a ser ela mesma, o que é muito bom. Está interessante, e quero saber onde isso vai dar, principalmente com a resistência de Carla caindo!

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    1. Oi Laris!
      Td bem, linda?
      A Júlia é cara de pau, né? Mas na verdade... Ela enviou o convite, a Carla aceitou, elas se encontraram e daí ficou nítido que ainda existe algo entre elas... E que no fundo, a Carla é bastante receptiva à uma nova aproximação dela...
      Sendo assim...
      Como não insistir, né? kkk
      Vamos ver até onde Carla consegue resistir...
      bjo super ultra mega hiper imensamente giga!

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  5. Perfeito essa imensidão de pensamentos. Cada capítulo nos faz refletir sobre as atitudes que tomamos e largamos tantos sonhos por realizações pessoais e profissionais e esquecemos quem realmente deveria estar ao nosso lado sempre.
    Diedra Arrasando como sempre! Amo todos. Obrigada por mais essa fantástica história que nos faz repensar e amar quem está conosco no dia a dia.

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    1. Oi Cida!
      Td bem, linda?
      Muito, mas muito obrigada mesmo!
      :)
      Sabe que essa história tb está me fazendo refletir bastante?
      bjo muito mais que ultra super hiper mega giga imensamente especial!

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  6. Diedra, Diedra. .. como é que passo meu domingo agora? Quero mais!!!! Desde nosso último conto que não leio nenhuma outra história, mais por falta de tempo. Mas essa tá me fazendo arrumá-lo e até deixar as tarefas pra depois. Rsrs. Em um dia eu li sete capítulos e passaria todo o resto do dia de hoje lendo.... vc está transcendendo a perfeição nessa história! Parabéns! !!
    Bjs
    J . Hunter

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    1. Jenny, sua linda!
      Da próxima vez faz assim: me liga! kkkk
      Espero que continue acompanhando, gostando e comentando, viu?
      bjo ultra mega hiper super imensamente giga blaster especial, amiga!

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